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A gastronomia da Noite de Natal nas Caldas
23-12-2010 |
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| A gastronomia da Noite de Natal nas Caldas |
O Natal surge como o aniversário do nascimento de Jesus Cristo, Filho de Deus, sendo actualmente uma das festas católicas mais importantes.
Inicialmente, a Igreja Católica não comemorava o Natal. Foi em meados do século IV d.C. que se começou a festejar o nascimento do Menino Jesus, tendo o Papa Júlio I fixado a data no dia 25 de Dezembro, já que se desconhece a verdadeira data do Seu nascimento.
O Natal é celebrado em todo o mundo, mas as suas tradições variam de país para país e de religião para religião, conforme os usos e costumes.
Embora o Natal português esteja um pouco influenciado por outras culturas, sobretudo através dos filmes americanos os portugueses ainda seguem algumas tradições natalícias herdadas dos antepassados.
Em Portugal a tradição natalícia remete-nos para um universo familiar com presentes e pratos deliciosos para uma calma degustação. Esta quadra do ano proporciona a reunião com familiares e amigos à volta da mesa de Natal, partilhando alegremente uma refeição. Portanto, a gastronomia não deixa de ter as suas tradições natalícias e os portugueses não deixam de apreciar uma culinária especial nesta quadra do ano.
Falando com diversas pessoas da região, o JORNAL DAS CALDAS apurou que o Natal é o momento de relaxar e aproveitar as comidas tradicionais desta data. Para a ocasião, seleccionámos algumas sugestões de onde pode encontrar as iguarias tradicionais da época que muitos continuam a procurar.
No dia 24 de Dezembro, véspera de Natal, à noite, em casa da maioria das famílias desta região ainda se serve o bacalhau cozido com batatas, cenouras, couve portuguesa, ovos, bem regado de azeite. A doçaria cerimonial continua a ser as rabanadas, broas, sonhos, filhoses e bolo-rei. Ainda no dia 24, no final da ceia, há a missa do galo à meia-noite, embora actualmente esta missa esteja a cair em desuso.
O que é nacional é bom
Para o comércio em geral é uma época relevante, talvez mesmo a mais importante em termos de vendas.
Os produtos nacionais oriundos do comércio tradicional das Caldas continuam a ser muito procurados para a confecção da consoada.
No Natal, “O Pão Nosso de Todos os Dias”, com gerência da Casa Antero/Pachá é muito procurado pelas já conhecidas broas castelares. Utilizando uma receita antiga, o pasteleiro José Manuel, com uma vasta experiência no ramo, faz broas castelares sem farinha. “É uma broa que não leva farinha, portanto, não fica tão seca”, disse, acrescentando que é feita “com açúcar, batata-doce, amêndoa torrada ralada, côco e gema de ovo”. Segundo José Manuel, a procura desta broa no Natal tem vindo a crescer. “As pessoas não conheciam e quando a provam preferem”, apontou.
A broa do rei é outra especialidade da época natalícia confeccionada por este pasteleiro. “É uma broa à base de centeio com fruta cristalizada e frutos secos, que também tem muita saída na altura do Natal”, revelou José Manuel.
Bacalhau na noite de consoada
Não há tradição mais portuguesa do que o Bacalhau na noite de consoada. Esta iguaria continua a ser o prato da maioria dos portugueses para a ceia de Natal. Apesar da crise os portugueses não apertam o cinto quando chega o Natal. O bacalhau para essa noite tem que ser de qualidade.
De partida para Aveiro para ir buscar mais bacalhau Rui da Bernarda, proprietário da Mercearia Pena, nas Caldas diz que no mês de Dezembro vende sempre cerca de quatro toneladas de bacalhau. “Apesar de termos o produto durante todo o ano, somos uma casa especializada no bacalhau no Natal”, comentou o empresário.
Os afins do bacalhau são outros produtos também muito procurados nesta época na Mercearia Pena. “Há muita gente que prefere as caras de bacalhau na consoada porque é uma noite em que temos tempo para comer”, apontou.
Os cabazes de Natal da Mercearia Pena com vinhos, espumantes, enchidos, queijos, e outros produtos da Região Oeste têm igualmente grande procura.
Couve portuguesa acompanha o bacalhau
Como manda a tradição a couve portuguesa continua a acompanhar o bacalhau cozido na ceia de Natal. António Pereira, de Olho Marinho, produz esta couve e enquanto durante o ano vende na Praça da Fruta das Caldas cerca de 25 couves por dia na véspera de Natal vende mais de 800 couves na banca. “A couve portuguesa deve-se comprar no dia em que é consumida, porque depois de murcha não fica tão brilhante no prato depois de cozida”, referiu o agricultor, acrescentando que “qualquer família leva sempre uma média de quatro a cinco couve de cortar”.
António Pereira comentou ainda que no Natal como a procura é maior a couve portuguesa sobe um pouco de preço. Na média durante o ano custa 50 cêntimos a unidade e no Natal sobe para 80 cêntimos.
Bolo-rei continua a ser um dos principais sabores de Natal
Bolo-rei é um bolo tradicional português que se come na consoada por alturas no Natal até ao Dia de Reis (6 de Janeiro), numa clara alusão aos reis magos. De forma redonda com grande buraco no centro lembra uma coroa pintalgada por frutos secos e cristalizados. Mesmo sem brinde e a fava, o bolo-rei continua a ser um dos principais sabores de Natal nesta região e em Portugal. É um sabor imprescindível à mesa dos portugueses em época de Natal. Dantes havia o brinde e a fava. A quem calhasse a fava significava que tinha de comprar o bolo no próximo ano. A ASAE (Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica) retirou a brincadeira associada ao bolo, mas mesmo sem o brinde, nas pastelarias, nas vésperas de Natal, hoje, como antigamente, trabalham-se horas para satisfazer as encomendas. Assim é um pouco por todo o país e também na Pastelaria Machado, que tem uma grande tradição na confecção do bolo-rei.
“É o bolo-rei como se fazia há mais de 60 anos, é a mesma receita que foi trazida de Lisboa do avô do meu marido, que foi pasteleiro em Lisboa e assim se continua a fazer”, disse Peregrina Molares, proprietária da Pastelaria Machado. Na véspera de Natal este estabelecimento vende cerca de 700 quilos de bolo-rei. Há sempre bolo-rei a sair. Peregrina Molares recebe encomendas de pessoas de Lisboa e também de Santarém, onde os bolos são enviados no dia 23 de Dezembro pela Rodoviária.
Segundo esta responsável, o bolo rainha confeccionado só com frutos secos também é muito procurado mas o bolo-rei continua ser o preferido da época natalícia. “A fruta cristalizada, nomeadamente a tangerina e pêra, dá uma humidade e certo gosto à massa”, revelou Peregrina Molares, referindo que dantes era na pastelaria Machado que preparavam toda a fruta cristalizada. “Tínhamos que contratar uma pessoa porque é um processo longo e trabalhoso, portanto optámos por comprar as frutas, no entanto, continuamos a preparar a tangerina e a pêra”, apontou.
A Lampreia e as trouxas-de-ovos são também muito procuradas nesta época na Pastelaria Machado.
As rabanadas são muito apreciadas no Natal
A doçaria é igualmente obrigatória e a sua variedade riquíssima. As rabanadas são pequenas delícias muito apreciadas nesta época.
Na pastelaria Dominó, as rabanadas “caseiras” são muito procuradas nesta época. “As filhoses, sonhos e rabanadas vendem-se muito bem no Natal”, disse Fátima Duarte, que tem sempre no seu estabelecimento essas iguarias que são confeccionadas de uma forma artesanal.
Inquérito
Mantém a tradição natalícia na consoada de Natal?
Gonçalo Melo, Chefe de Cozinha da Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste
Sou da zona de Coimbra e costumo sempre na consoada de Natal comer o bacalhau cozido, com batata, ovo e couve portuguesa. Há quem opte pelas caras de bacalhau mas naquela zona é sempre o bacalhau
Depois da ceia de Natal não tenho por hábito ir à Missa do Galo, os meus avós é que costumavam ir sempre a essa cerimónia religiosa.
Fernando Costa, presidente da Câmara das Caldas da Rainha
Eu como sempre o bacalhau cozido com a couve portuguesa. Na minha mesa no Natal não há cabrito nem outras carnes, é o tradicional bacalhau e só bacalhau
Já não vou há algum tempo à Missa do Galo, mas vejo sempre na televisão.
Marlene Sousa
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