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Opinião
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E o futuro?

O filósofo e urbanista Paul Virilio, na obra L’Accident Originel (Paris, Editions Galilée, 2005), considera que a invenção do navio foi também a invenção do naufrágio, sugerindo que todas as invenções têm consequências negativas que não ocorreriam se não fossem as invenções.

11-09-2019 | Francisco Martins da Silva

Francisco Martins da Silva
Francisco Martins da Silva
Vivemos numa era geológica que Paul Crutzen chamou em 2000 Antropoceno. O termo, Antropoceno, resulta da evidência da transformação da Terra pelo ser humano, sendo o aquecimento global a consequência mais gravosa do progresso tecnológico que começou com a invenção da máquina a vapor por James Watt em 1784.
Os conceitos de progresso e racionalidade científica do Iluminismo estão hoje ligados às alterações climáticas, o maior problema da humanidade. Os valores que enformaram o paradigma da nossa forma de viver nos últimos 220 anos revelaram-se catastróficos. Que outros valores deveremos adoptar?
Segundo um estudo conjunto da Universidade Estadual de New Jersey e do Instituto Weizmann de Ciência, de Rehovot, Israel, sobre a biomassa do planeta Terra, publicado em 2018, a espécie humana representa apenas 0,01% de todos os seres vivos. Mas já causámos a extinção de 83% dos mamíferos selvagens e metade das plantas, através da destruição do ambiente necessário à sua sobrevivência. É uma taxa de extinção entre 100 a 1000 vezes superior à norma geológica. Estando todas as espécies relacionadas, incluindo a nossa, neste ecossistema global, ao destruirmos os habitats dos outros seres vivos, pomos em risco o nosso bem-estar e sobrevivência. A consequência maior, nos próximos decénios, será enfrentarmos alterações como a subida da temperatura média. Tendo apenas 2,5 milhões de anos de existência, a espécie humana não está biologicamente preparada.
Que outro comportamento deveremos adoptar?
Apesar de se saber que os combustíveis fósseis são finitos, continuamos a explorá-los como se não tivessem fim e a queimá-los como se não houvesse consequências ambientais. Esta ideia de que podemos continuar a produzir energia sem ter de pagar as consequências está também subjacente ao maior projecto de engenharia em curso — uma imensa caverna, Onkalo em finlandês, para recolha de lixo radioactivo. Trata-se de um túnel de 42 Km, a 450 m de profundidade, o primeiro depósito de resíduos nucleares do mundo, em construção na Finlândia, concebido para durar dez mil anos, o tempo que se estima suficiente para as radiações se dissiparem. Um absurdo baseado na ideia de que a estabilidade geológica da Finlândia protegerá o mundo do lixo nuclear produzido hoje, mesmo havendo catástrofes naturais ou provocadas pelo ser humano. Esperar que nos próximos dez mil anos não ocorra nenhuma falha estrutural ou de segurança na dita caverna é uma aposta inconsciente e irresponsável. Também as pirâmides de Gizé se destinavam a encerrar os corpos dos faraós para sempre…
Verifica-se que as pessoas só se preocupam com causas comunitárias de longo prazo quando as suas necessidades individuais de curto prazo estão resolvidas. No mais recente Eurobarómetro, fica claro que é nos países mais ricos que existe uma maior consciencialização para o problema ambiental. Nos países mais ricos da UE, mais de 20% da população coloca o ambiente no topo das suas inquietações. Entre os mais pobres, apenas 10% estão preocupados. Portanto, a única forma de fazer do ambiente uma questão prioritária interiorizada por muitos é eliminar ansiedades e arrelias de curto prazo, ou seja, crescer economicamente. De forma sustentável, claro.
Verificando-se hoje esse improvável e inédito assomo de sageza, iriamos a tempo?
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