Login  Recuperar
Password
  20 de Outubro de 2018
Estão utilizadores online Existem actualmente entidades no directório

Pode fazer o registo (grátis) do seu mail pessoal/ profissional e ter acesso privado, password e serviços personalizados, nos sites e redes sociais dos jornais. Terá uma assinatura digital de Grupo (gratuita), mas personalizada. Pretende registar-se?

Registar-se com o seu email pessoal/ profissional

(aguarde 5)
Siga a nossa página Facebook Siga a nossa página Google Plus Siga-nos no YouTube Siga-nos no Twitter Dispositivos móveis Assine a edição impressa
Opinião
Imprimir em PDF    Imprimir    Enviar por email   Diminuir fonte   Aumentar fonte

De Gaulle face ao Movimento Maio de 68

Considerado o acontecimento social mais importante da história francesa no século XX, o movimento Maio de 68 continua a despertar paixões, sendo hoje objecto de estudo por toda a parte, inclusive no mundo asiático.

11-05-2018 | João Hermenegildo

Manifestação gaulista, 30 de maio de 1968
Manifestação gaulista, 30 de maio de 1968

Depois do considerável sucesso da França gaulista do pós-guerra, sucesso económico, industrial e diplomático, em 1968 o Presidente da República general Charles de Gaulle, com a idade de 78 anos, enfrenta um período de desgaste interno e desconfiança por parte aliado norte-americano.
Importa recuar um pouco e lembrar que dois anos antes de Gaulle manifestara o desejo de retirar a França do sistema de defesa comum da NATO, proferiu um discurso bastante crítico relativamente à política externa norte-americana e exigiu a retirada deste país do Vietname.
A grande viagem do chefe de Estado francês pela América Latina em 1964 rivalizando com o prestígio que os EUA vinham cimentando no mundo, a política francesa relativamente à CEE e ao Quebeque e a aproximação à Rússia constituem os principais motivos para que a CIA tente aproveitar os acontecimentos de Maio de 1968 para fazer cair de Gaulle. Segundo o historiador e jornalista Eric Branca, o papel da CIA em Maio de 68 foi o de juntar gasolina ao fogo, e fundamenta esta opinião nas pesquisas que realizou em documentos dos Serviços Secretos norte-americanos recentemente desclassificados. O apoio da CIA ao jovem anarquista Daniel Cohn-Benedit e a François Miterrand são exemplos disso.
Ainda que as eleições legislativas do ano precedente tenham permitido uma forte recuperação do partido comunista francês, em que obtiveram 22,5% dos votos expressos, os Norte-americanos estão confiantes de que em qualquer caso o comunismo não se iria instalar em França e não hesitam quanto à necessidade de derrubar o general.
O ano de 1967 e até Maio de 1968 constituiu um período particularmente movimentado à escala planetária, como que preparando os acontecimentos do mês de Maio em terras gaulesas. O assassinato de Che Guevara, as manifestações anti-guerra do Vietname em França, Alemanha e EUA, a Guerra dos Seis Dias entre Israel e a Coligação Árabe, a morte dos 52 ocupantes do submarino francês Minerve, as frequentes greves e contestações estudantis em França, são alguns dos exemplos mais marcantes.
A extraordinária sequência de acontecimentos que viria a ficar na memória do Mundo como “Movimento Maio de 68” teve início a 2 de Maio com a contestação dos estudantes da Universidade Paris Nanterre. Reivindicavam mais e melhor alojamento, mais oportunidades profissionais e modernização na gestão do sistema de ensino superior. No dia seguinte, a brutal intervenção policial, dispersando o plenário estudantil e encerrando as instalações da universidade de Sorbonne, abriram as hostilidades. Neste dia 3 de Maio foram detidos 500 estudantes, provocando a revolta da comunidade estudantil nas ruas do Quartier Latin, em Paris. A partir daqui o caos foi-se instalando com cocktails Molotov, pedras da calçada, barricadas, cargas policiais, matracas e gás lacrimogéneo.
O agravamento dos confrontos na noite de 10 para 11 de Maio (foto da esquerda), 367 feridos dos quais 32 graves, 188 veículos incendiados e ruas inteiras despavimentadas, determinou a viragem da opinião pública a favor dos estudantes, a generalização das contestações e a paralisação quase completa do país.
A partir deste momento reclamava-se também contra o imperialismo, contra o capitalismo, pela libertação sexual das mulheres, por melhores salários, pela redução do horário de trabalho, contra o patronato, contra o poder político, contra o estado policial e contra a política agrícola da Comunidade Económica Europeia.
De Gaulle, de formação militar e habituado a marcar o cadência do andamento, não soube ou não quis estabelecer laços com os protagonistas dos protestos. Por seu turno, o primeiro-ministro George Pompidou sempre manteve contactos e negociações (quase sempre mal-sucedidas) numa lógica de ganhar tempo e esperar que os ânimos resfriassem. A agenda externa do presidente e do primeiro-ministro não contribuiriam em nada para permitir boa coordenação do poder face ao desenrolar dos acontecimentos. No início do mês de Maio o primeiro-ministro encontrava-se no exterior do país em visita ao Irão e Afeganistão, de onde regressou apenas dia 11 de Maio. O presidente, por seu lado, fez questão de dar cumprimento à visita programada à Roménia, partindo dia 14 e regressando dia 18.
Segundo o gaulista Olivier Jermain Thomas, então estudante de filosofia na Sorbonne, a par de uma certa hesitação em que o general inclusive equacionou abandonar a cadeira da presidência, existiu de facto uma grande descoordenação entre de Gaulle e o seu governo.
Olivier J. Thomas refere também que por detrás do idealismo e alegria dos protestos estudantis se posicionavam maoistas e trotskistas formados em Itália e Alemanha em termos de combate de rua. A percepção desta realidade terá sido determinante para o seu posicionamento como um dos poucos estudantes ao lado do poder gaulista. “Um anarquista como Cohn-Bendit não acreditava na revolução” diz Olivier J. Thomas.
Sucediam-se declarações dos sindicatos, dos líderes estudantis, de líderes partidários, do primeiro-ministro e do próprio Presidente da República.
No dia 28, François Miterrand, que nesta altura contava já com um peso político incontornável, fez uma intervenção televisiva defendendo a formação de um governo provisório de transição e gestão. Recorde-se que na eleição presidencial de 1965 Miterrand submeteu o general Charles de Gaulle a uma segunda volta, contando, entre outros, com o apoio do empenhado Movimento Feminista de Esquerda.
Apenas no dia 29, na sequência de uma série de acontecimentos inesperados, a situação viria a conhecer uma inversão do ciclo de descontrolo. Primeiro o “desaparecimento” de de Gaulle e, no dia seguinte, o seu discurso e a grande manifestação de apoio ao presidente.
De Gaulle, esgotado e à beira do colapso, necessitado de dormir e reflectir, decidiu deslocar a família para a sua residência de campo em Colombey-les-deux-Églises e ir ao encontro do general Massu, o comandante das forças militares francesas de ocupação na Alemanha. Além da família, o chefe de Estado levou consigo um volume de bagagem que deixava supor uma permanência prolongada e, sobretudo, o que viria a gerar grande controvérsia, não previne ninguém, nem mesmo o primeiro-ministro Georges Pompidou.
No dia 30 às 16:30, de volta a Paris, de Gaulle faz uma alocução radiofónica. “(...) nas circunstâncias actuais não me demito, (...) mantenho o primeiro-ministro (...) dissolvi, hoje, o parlamento nacional (…) a França está ameaçada de ditadura, pretendem forçá-la a aceitar um poder que se imporá ao desespero nacional. Evidentemente que este poder será sobretudo o poder dos vencedores, quer dizer, o poder do comunismo totalitário (…), não, a república não abdicará (...)”, disse Charles de Gaulle.
François Miterrand reagiria dizendo que estas palavras eram a “voz da ditadura” e um “apelo à guerra civil”.
Com este discurso, de Gaulle conseguia virar a opinião pública a seu favor e a manifestação desse mesmo dia 30, que se temia vir a ser um desastre completo por não poder ombrear em termos de adesão com as manifestações grevistas, contou com cerca de 900 mil pessoas esmagando por completo as dúvidas quanto à posição maioritária do povo francês (foto da direita). A partir daqui o movimento conheceu o seu progressivo esvaziamento.
Encontram-se inúmeros motivos de interesse nos contornos do Movimento Maio 68. Destaquem-se três deles, intimamente ligados ao foco central deste texto.
Cohn-Bendit: Carismático e bastante activo, o jovem agitador Daniel Cohn-Bendit foi uma das figuras mais marcantes de todo o processo no seio do movimento estudantil. Anarco-trotskista apoiado pela CIA, Dany le Rouge, como então ficou conhecido, é filho de judeus alemães, nasceu em França em 1945 mas tinha nacionalidade alemã. Em 1968 encontra-se como estudante na Universidade Paris Nanterre, onde já se tinha destacado como agitador. A 21 de Maio de 68 o ministro do interior Christian Foucher, aproveitando uma breve estadia de Cohn-Bendit na Alemanha, emitiu um despacho que o proibia de regressar a França. Evidentemente a ordem não foi cumprida. Mais recentemente, entre 1994 e 2014, viria a ocupar um lugar de deputado europeu pelo partido “Os Verdes” francês, defendendo o capitalismo e o federalismo europeu. Não deixa de ser curioso verificar que, passados 50 anos, alguns dos protagonistas de extrema-esquerda encontram-se hoje à direita dos gaulistas da época, a quem chamavam fascistas.
Partido comunista francês: Mais do que num papel revolucionário, o partido comunista francês acabou por ser determinante no papel de estabilizador da ordem. Sendo objectivos, os comunistas interpretaram a situação como não sendo revolucionária. Sendo pragmáticos, participaram activamente na contestação ao lado dos operários mas não deixaram de segurar de Gaulle. Os comunistas não só detestavam os esquerdistas, como lhes agradava a política de Charles de Gaulle no que se refere à aproximação à Rússia, à condenação da Guerra do Vietname e à fragilização do dólar americano.
Segundo Jérôme Pozzi (Revue du Nord), “A 27 de Maio de 1968, o secretário geral do partido comunista Waldeck Rochet diz a Jacques Vendroux nos corredores do Palácio de Bourbon: 'Principalmente diz ao General que ele não tem o direito de abandonar'”
Contenção dentro dos limites da contestação: A extrema-esquerda dispunha dos meios necessários para (assim o entendessem as forças determinadas em fazer cair de Gaulle) numa das manifestações lançar um engenho explosivo no meio da multidão e desta forma gerar o caos. Evidentemente que numa ordem natural das coisas, a responsabilidade seria atribuída às autoridades policiais e, com toda a probabilidade, um episódio desta natureza faria cair o poder gaulista. O facto é que tal não aconteceu e ainda hoje não se sabe exactamente o que terá travado esta possibilidade.
Por outro lado, é consensual o facto de que as forças policiais actuaram na base de dois princípios fundamentais. Evitar a todo o custo fazer vítimas mortais e, por outro lado, cortar os laços entre os movimentos estudantil e sindical. Édouard Balladour, então assessor do primeiro-ministro, afirma que não obstante a defesa de uma intervenção mais musculada das forças da ordem defendida por vários ministros e pelo próprio de Gaulle, a linha seguida por George Pompidou foi a contrária, sobretudo depois do fracasso (para o governo) em que se traduziram as imagens da noite de 10 de Maio.
Tags:
COMENTÁRIOS
Deverá efectuar Login ou fazer o Registo (Grátis) para poder comentar esta notícia.
pub
Ciência & Tecnologia

A carregar, por favor aguarde.
A Carregar

    Notícias Institucionais

    A carregar, por favor aguarde.
    A Carregar