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Opinião
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Escaparate

Jardim da Água

17-05-2018 | Rui calisto

Preocupa-me, o estado em que se encontra o “Jardim da Água” de autoria do ceramista Luís Ferreira da Silva (1928-2016).
Essa obra de arte exterior/urbana, uma das maiores de Portugal, está a sofrer a ação do tempo, notando-se em larga escala a sua degradação. Para aumentar o problema, como não possui nenhuma proteção, ou vigilância, é vítima da inconsequência humana. Essa peça escultórica mostra o enlace alegórico de dois grandes símbolos caldenses: A cerâmica e a água, e possui, ainda, um disfarçado simbolismo esotérico.
Infelizmente, já não conta com as tampas em ferro e as torneiras de segurança, retiradas por mão alheia, e possui, em diversas frações, um acentuado avanço das ervas daninhas, prejudiciais para a estabilidade de toda a estrutura.
Ferreira da Silva, portuense de nascimento, e que viveu em diversas cidades portuguesas, apaixonou-se por Caldas da Rainha por causa da “luz inigualável” deste concelho. O seu trabalho abrangia diversas áreas, entre elas, a cerâmica, o desenho, a gravura, trabalhando os mais distintos materiais, tais como, o barro, o vidro e o metal. Das inúmeras láureas que recebeu, destaco a Medalha de Ouro das Caldas da Rainha e a Comenda da Ordem de Mérito, outorgada por um antigo presidente da República.
O artista, que veio em busca da luz, permanece agora em amarga escuridão. Pois, não será apenas com homenagens ancoradas em palavras que se manterá o sol sobre aquela personalidade. É necessário que se recupere a sua obra urbana, principalmente o “Jardim da Água”, a sua “menina dos olhos”.
Exalto o gesto da Associação Património Histórico (PH), ao solicitar à Direção Geral do Património Cultural (DGPC), a classificação daquela obra de arte como Imóvel de Interesse Público.
Exalto ainda a tentativa da Câmara Municipal de tentar dialogar com o Centro Hospitalar, mostrando-se totalmente disponível para adquirir e montar um novo sistema para a circulação da água naquela peça, porém, relembro a urgente necessidade da recuperação física daquele património, bem como da obrigatória, e imediata, contratação de vigilância para o local.
É fundamental que se desenvolvam esforços, no sentido de envolver a sociedade caldense, os estabelecimentos de ensino e demais organismos da Cultura e da Educação locais, em torno da obra de Ferreira da Silva.
Como aquela obra de arte é propriedade do Centro Hospitalar do Oeste, naturalmente, deveria ser este organismo a resolver os problemas que a mesma possui. Compreendo, perfeitamente bem, a dificuldade de o fazer, assim sendo, creio que deva existir um consenso e um protocolo de cedência em favor da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, por tempo indeterminado, para que as medidas mais urgentes e recomendadas possam ser colocadas em prática.
O “Jardim da Água” foi imaginado e consubstanciado entre os anos de 1993 e 2009, tendo Ferreira da Silva utilizado - além de fragmentos autênticos do aqueduto das águas - uma junção de ferro, cerâmica e vidro. A água que deveria estar ali a correr entre freichas e reflexos, retratando fielmente a cidade, em toda a sua pujança aquífera e cerâmica, foi substituída pelo desleixo, das mãos, da mesma urbe que a viu nascer.
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